16/06/2014

O sortilégio verbal de Zetho

Zetho Cunha Gonçalves
Fotografia do seu perfil no Facebook, 27.01.2011

Quem frequentou recentemente a 84.ª Feira do Livro de Lisboa [29 de maio – 15 de junho], pôde cumprimentar e mesmo conversar francamente com o poeta Zetho Gonçalves. O escritor angolano, a viver em Portugal, marcou presença no pavilhão da Livraria Letra Livre, autografando o mais fresco dos seus livros – Notícia do maior escândalo erótico-social do século xx em Portugal –, a par de Terra: Sortilégios, Rio sem Margem: Livro II, estes dois livros com chancela da NósSomos, editora motivada na divulgação da poesia angolana.
Afável, iluminado por um sorriso jovial e o lume do cigarro – lembro também o cabelo cascatando em ondas, dominadas mas livres – o escritor acolheu-nos com toda a disponibilidade e interesse, abonado de ideias, histórias, projetos. O que publicamos aqui não é a conversa informal ocorrida nesse encontro, mas um esboço da vida e obra do escritor.

A VIDA

Zetho Cunha Gonçalves, nasceu na cidade do Huambo, em Angola, a 1 de Julho de 1960. Passou a infância e adolescência no Cutato (pequena povoação na Província do Cuando-Cubango, a que chama a sua “pátria inaugural da Poesia”).
Estudou no Colégio Alexandre Herculano, na cidade do Huambo, e Agronomia na extinta Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, em Portugal.
Poeta, autor de literatura infanto-juvenil, antologiador, tradutor de poesia e organizador de edições literárias, exerceu várias profissões: de tratador de gado numa fazenda a empregado de escritório, de vendedor de publicidade e publicitário a diretor adjunto de um jornal de turismo falido, de empregado de mesa em restaurantes e pesquisador de notícias para uma empresa da especialidade a intermediário e conselheiro de bibliófilos.


Publicou os seguintes livros de poesia: Exercício de escrita (1979), Coração limite/Sobre a sombra do corpo (1981), A construção do prazer/Reportagem do silêncio (1981), O incêndio do fogo, (1983), O outro mapa da Terra (1997), O voo da serpente (19989, A palavra exuberante (2004), Sortilégios da Terra: Canto de narração e exemplo (2007), Rio sem margem: Poesia da tradição oral (2011), Terra: Sortilégios (2013), Rio sem margem. Poesia da tradição oral: Livro II (2013), Noite vertical (no prelo).

De literatura infantil e juvenil publicou: Debaixo do arco-íris não passa ninguém (poemas, 2006), A caçada real (teatro, 2007); Brincando, brincando, não tem macaco troglodita (poemas, 2011), A vassoura do ar encantado (estória, 2012), Dima, o passarinho que criou o mundo: mitos, contos e lendas dos países de língua portuguesa (antologia, 2013) e A galinha-de-Angola que punha os ovos no telhado (poemas, no prelo).

Traduziu poesia de Antonio Carvajal, Vicente Huidobro, William Carlos Williams, Joan Brossa, Rainer Maria Rilke e Friedrich Hölderlin e organizou edições de obras de Mário Cesariny, Luís Pignatelli, António José Forte, Natália Correia, Eça de Queiroz (em colaboração com Eduardo Coelho), Fernando Pessoa, Luís Carlos Patraquim e Manuel de Castro.
Organizou as seguintes antologias: 35 Poemas para 35 anos de independência (2010), Antologia do conto africano de língua portuguesa (ed. brasileira, no prelo), Antologia do conto angolano (em colab. com João Melo, no prelo), Antologia da poesia angolana: 1849-2009 (em col. com Rosário Fernandes, no prelo), Poesia africana de língua portuguesa (em col. com Luís Carlos Patraquim, a publicar), Os 47 poemas de vida de Fernando Pessoa (a publicar).
É membro da Comissão Executiva da revista eletrónica Mulemba – Revista de Estudos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e tem colaboração dispersa por jornais e revistas de Angola, Brasil, Espanha, Itália, Moçambique e Portugal. Tem participado em vários colóquios e encontros literários em Portugal, Brasil, Itália e Cuba.
Está representado em diversas antologias coletivas e as suas obras estão traduzidas para alemão, espanhol, hebraico e italiano.

Vive atualmente em Lisboa, dedicando-se inteiramente à literatura.

A OBRA


1. Poesia

  1. Exercício de escrita (1979)
  2. Coração limite/Sobre a sombra do corpo (1981)
  3. A construção do prazer/Reportagem do silêncio (1981)
  4. O incêndio do fogo (1983)
  5. O outro mapa da Terra (1997, ed. manuscrita, exemplar único)
  6. O voo da serpente (1998, ed. manuscrita, 12 exemplares, com quatro desenhos do autor)
  7. A palavra exuberante. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004.
  8. Sortilégios da Terra: Canto de narração e exemplo. Fot. João Prates. Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2007.
  9. Rio sem margem: Poesia da tradição oral [livro I]. V. N. de Cerveira / Luanda: NósSomos, 2011. / Ed. brasileira: Rio sem margem. Poesia da tradição oral africana. Il. Thais Beltrame. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 2013. 
  10. Rio sem margem: Poesia da tradição oral. Livro II. V. N. de Gaia / Luanda: NósSomos, 2013.
  11. Terra: sortilégios. Vila Nova de Cerveira / Luanda: NósSomos, 2013. 
  12. Noite vertical (2014). 

2. Literatura infanto-juvenil (poesia, teatro e fição)

Debaixo do arco-íris não passa ninguém (poemas). Il. Roberto Chichorro. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006. / ed. brasileira: Rio de Janeiro: Língua Geral 2012?.

A caçada real (teatro para crianças). Il. Roberto Chichorro. Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2007 / São Paulo: Matrix, 2011 / Maputo: Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa, 2013.
    Brincando, brincando, não tem macaco troglodita (poemas). Il. Roberto Chichorro. São Paulo: Matrix, 2011.

    A vassoura do ar encantado (estória). Il. Andrea Ebert. Rio de Janeiro: Pallas Ed., 2012.
    Dima, o passarinho que criou o mundo: Mitos, contos e lendas dos países de língua portuguesa (antologia). Il. Angelo Abu. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 2013.
    A galinha-de-Angola que punha os ovos no telhado (poemas). Il. Mariana Fontes. Rio de Janeiro: Língua Geral, (no prelo).


    3. Tradução

    1. Antonio Carvajal, O desejo é uma água [ed. bilingue]. Il. Antonio Jimenez. Lisboa: Edições Prates, 1998.

    2. Vicente Huidobro, Altazor: Canto II, 2012.

    3. William Carlos Williams, Poemas, 2012.

    4. Joan Bross, 20 Poemas, 2012.

    5. Rainer Maria Rilke, 15 poemas, 2012.

    6. Friedrich Hölderlin, Sete poemas, 2012.





      4. Edição literária

      • CESARINY, Mário, Corpo visível. Il. Pedro Oom. Lisboa: Prates, 1996. 
      • PIGNATELLI, Luís, Obra poética. Lisboa: & etc., 1999. 
      • FORTE, António José, Uma rosa na tromba de um elefante, [1.ª ed., Lisboa: Afrodite, 1971], des. Aldina, 2.ª ed., Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2001. 
      • FORTE, António José, Uma faca nos dentes, [1.º ed., Lisboa: & Etc, 1983], 2.ª ed. aumentada – “Obra Poética Completa”, pref. Herberto Helder; des. e fotografias Aldina, Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2003. 

      • CORREIA, Natália, Breve história da mulher e outros escritos, pref. Maria Teresa Horta. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2003 / 2.ª ed., 2003. 
      • CORREIA, Natália, A estrela de cada um. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004. 
      • SOUSA, Antónia de; Bruno da Ponte; Dórdio Guimarães; e Edite Soeiro, Entrevistas a Natália Correia. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2004. 
      • CORREIA, Natália, Contos Inéditos e crónicas de viagem. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2005. 

      • QUEIROZ, Eça de; Ramalho Ortigão, Os brasileiros, em col. com Eduardo Coelho. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2008. 
      • PESSOA, Fernando, Contos, fábulas & outras ficções, 2008 / Trad. italiana de Virgina Caporalli, sob o título La vita non basta. Racconti, favole e altre prose fantastiche. Roma: Vertigo, 2010. 
      • PATRAQUIM, Luís Carlos, Impia scripta [crónicas e ensaios]. Maputo: Alcance Ed., 2011. 
      • PESSOA, Fernando, Contos completos: fábulas & crónicas decorativas. Lisboa: Antígona, 2012 / 2.ª ed., 2013./ Ed. brasileira sob o título Um grande português. Contos, fábulas & outras histórias. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2012. 
      • PATRAQUIM, Luís Carlos, Manual para incendiários e outras crónicas. Lisboa: Antígona, 2012. 
      • CASTRO, Manuel de, Bonsoir, Madame, Lisboa: Língua Morte / Alexandria, 2013. 
      • PESSOA, Fernando et al., Notícia do maior escândalo erótico-social do século XX em Portugal, org., pref. e notas de Zetho Cunha Gonçalves Lisboa: Livraria Letra Livre, 2014. PATRAQUIM, Luís Carlos, O senhor Freud nunca foi a África, de Luís Carlos Patraquim (no prelo).

      5. Organização de antologias

      1. 35 Poemas para 35 anos de independência. Luanda, 2010.
      2. Antologia do conto africano de língua portuguesa [ed. brasileira], no prelo.
      3. Antologia do conto angolano (em col. com João Melo), no prelo.
      4. Antologia da poesia angolana: 1849-2009 (em col. com Rosário Fernandes), no prelo.
      5. Poesia africana de língua portuguesa (em col. com Luís Carlos Patraquim), a publicar.
      6. Os 47 poemas de vida de Fernando Pessoa, a publicar.

      6. Ensaio, crítica, crónica...

      1. Posfácio a: Estórias de coisas / José Alberto Marques. Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2008.
      2. «Prefácio a uma Antologia do Conto Angolano» [Antologia do Conto Angolano, coautoria com João Melo, Alfragide: Caminho, data?], in Buala – portal online, 06.09.2010.
      3. «Mukanda ao Ruy Duarte de Carvalho», artigo, in Mulemba – Revista de Estudos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa [online], n.º 3, Rio de Janeiro: Universidade Federal, dez. 2010; publicado antes em Buala – portal online, 25.08.2010.
      4. «A arte da felicidade é uma soma de cores noctívagas – sobre Roberto Chichorro», in Buala – portal online, 20.11.2010.
      5. «zefanias plubius sforza, um moçambicano com qualidades» [sobre romance de Luís Carlos Patraquim], artigo, in Mulemba – Revista de Estudos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa [online], n.º 3, Rio de Janeiro: Universidade Federal, dez. 2010.
      6. «Rio, Tambula Muxima I», crónica, in Cultura: Jornal angolano de artes e letras [online], 09.06.2012. 
      7. «Rio, Tambula Muxima II», crónica, in Cultura: Jornal angolano de artes e letras [online], 24.06.2012.


      7. Representação em antologias coletivas e obras individuais

      1. Vozes poéticas da lusofonia / Luís Carlos Patraquim, 1999.
      2. Sonhos d’agora e também d’outros tempos / Roberto Chichorro, 2009.
      3. Divina música: Antologia de poesia sobre música / Amadeu Baptista, 2009.
      4. «A voz da poesia que lê», in Pensando África. Literatura, arte, cultura e ensaio, org. Carmen Lucia Tindó Secco, Maria Teresa Salgado e Silvio Renato Jorge, 2010.
      5. Coletânea Prémio OFF FLIP de Literatura 2009 – org. de Ovídio Poli Junior, 2010.
      6. Histórias pintadas de azul / Roberto Chichorro, 2010.
      7. Hinc Illae Lacrimae! – Studi in memoria di Carmen Maria Radulet, 2 vols., org. Gaetano Platania, Cristina Rosa e Mariagrazia Russo, 2011.
      8. Conversas de homens no conto angolano. Breve antologia (1980-2010) / António Quino, 2011.
      9. Balada dos homens que sonham. Breve antologia do conto angolano / António Quino, 2012.
      10. Depois do silêncio: Escritos sobre Bartolomeu Campos de Queirós, org. Lucilia Soares & Ninfa Parreiras, 2013. 
      11. Entre o choro e o canto. Contos de guerra angolanos / João Melo, a publicar.

      ACERCA DO AUTOR

      2 comentários:

      1. Comprei o livro dele, mas ainda não o li.

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      2. Olá, João. Li alguns dos textos, até porque alguns já conhecia. É uma excelente coletânea contendo os textos dos protagonistas da polémica em torno das "Canções" de Boto, ou de se expressar o homoerotismo em literatura, ou de se ser gay na época ( e agora). O texto introdutório é fundamental e pode ser complementado / cruzado com os capítulos das biografias de F Pessoa por J Gaspar Simões e por R Brechon (partes ou caps. dedicados ao Boto). Para além da introdução do Zetho, os textos que me agradaram especialmente foram os do Álvaro Maia - uma pérola, com todos os clichés homofóbicos da época, parece um padre, se calhar até é, não investiguei - e o final, no apêndice II, da autoria do Moitinho de Almeida - já conhecia e reli: um testemunho de quem conheceu Pessoa e Boto, com anedotas e muitos aspetos da vida interessantes. Talvez venha a fazer um comentário desenvolvido para este blogue, mas depende do tempo. [desculpa o silêncio, mas esta vidinha não está nada fácil.]

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