16/11/2013

Do atinar com a Maria Joana

Fusão digital de grav. de Cruzeiro Seixas
e des. de João Filipe Bugalho
Conheci-a pessoalmente há pouco tempo. Hesitara em telefonar-lhe – um defeito meu! – para não a incomodar visto só ter o seu telefone de casa. Depois, intimado pela sua energia e determinação contagiantes, conhecia-a em casa de gente amiga e vizinha e atinei logo com ela.

É uma mulher ancorada embora desprendida, com presença – ocupa o aqui, o agora e o isto de que conversamos – e cuja primeira impressão ficará registada para sempre e que só parcialmente registo aqui: estava toda vestida de preto, entre o jovial-gótico e um feminino esmerado; a sua voz chegava-me por entre o fumo do cigarro e os seus cabelos densos e ondulados, ora mostrando os olhos intensos e perspicazes, ora ocultando o rosto – imaginei-a personagem de romances, com intriga policial, misto de Casa Blanca e Pulp Fiction… mas vejo-a sobretudo como uma pessoa comunicativa, brilhante em ideias e planos, apreciadora de belos e bons livros, com um desembaraço de movimentos invejável.

É muito breve e impressionista este retrato; o que agora se segue – uma nota biobibliográfica – é mais objetivo e convencional: coligi informação e admiração pela Joana Morais Varela e compus este “verbete” de vida vivida, que aqui apresento para quem gosta das coisas literárias.


A VIDA

          Maria Joana Custódio de Morais Varela nasceu na Marinha Grande, a 14.02.1952.
          Editora, tradutora, professora, escritora, mulher, mãe, amiga.

          Figura pública, para comemorar o seu 60.º aniversário, Joana Morais Varela reuniu um grupo de amigos e familiares no restaurante Mestiço, em Lisboa.

Com M.ª da Paz Brito, José M.ª Carrilho, os netos Vasco e Rita
Fot. de Paulo Jorge Figueiredo, in revista CARAS.

          Frequentou o Liceu de Leiria e licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa (1975), onde foi aluna de David Mourão-Ferreira.
          Foi professora do ensino secundário (1975-78) e do Instituto Superior de Línguas e Administração de Santarém (1997-2001). Dirigiu a divisão de Difusão do Livro do Instituto Português do Livro (1980-1985) e foi membro da Comissão de Leitura do Serviço de Bibliotecas Fixas e Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian (1983-88). Tendo começado a trabalhar na Revista Colóquio/Letras em 1985, ascenderia à direção da revista em 1996, por morte de David Mourão-Ferreira, prosseguindo a valorização editorial de números monográficos e de elevado apuramento estético.




          Tendo apresentado uma rubrica literária na RTP (1983-84), o seu interesse pela Literatura estende-se por domínios como a edição, a leitura crítica, a tradução e a criação poética.

          
          Joana Morais Varela organizou e editou volumes antológicos de David Mourão-Ferreira (Quatro Tempos, 1996); António Nobre (Só os melhores poemas, 1997); Vitorino Nemésio (Se bem me lembro…, 2001); Cristovam Pavia (Poesia, 2010) e de Henrique Segurado (Almocreve de Palavras: poesia 1969-1989, 2011).
          Redigiu leituras críticas – prefácios, artigos, resenhas, nótulas críticas… – sobre autores nacionais e internacionais de géneros literários diversos e para públicos igualmente diversificados. Uma pesquisa na secção “Rol de Livros” da Fundação Calouste Gulbenkian, sob o nome Joana Varela, revela cerca de 898 resultados.


          Uma das áreas em que cedo demonstrou labor e reconhecido mérito foi o da tradução, para a língua portuguesa, de obras de autores mundiais. Traduziu Gilles Deleuze e Félix Guatarri (O Anti-Édipo, 1977; Mil planaltos, 2004); James Joyce (O Gato e o Diabo, 1983); Michel Tournier (Que a alegria em mim permaneça: conto de Natal, 1985); Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, 1985 / 30.ª ed., 2013); Albert Cohen (O livro de minha mãe, 1986); Antoine de Saint-Exupéry (O Principezinho, 1986 / 32.ª ed., 2009); Leopoldo Alas (A Corregedora, 1988); Sigmund Freud (Delírio e sonhos na Gradiva de Jensen, 1995) e Gabriele Giuga (Barco negro: a emoção e a palavra, 2007).


          Joana Morais Varela publicou ainda em 1983 o volume poético - Os amores perfeitos, com “Histórias de bichos” e outras ilustrações de Artur Cruzeiro Seixas.
          Logo que tenha acesso a este álbum colocarei aqui um dos seus textos.




A OBRA


Edição / organização de volumes antológicos

  • Pequeno roteiro da história da literatura portuguesa / Instituto Português do Livro, org. Joana Morais Varela; colab. Miguel Serras Pereira et al.; coord. David Mouräo-Ferreira. Lisboa: IPL, 1982.
  • David Mourão-Ferreira, Quatro Tempos – antologia poética e CD com poema ditos por Luís Lucas, Lisboa: casa Fernando pessoa / Presença, 1996. – Org..
  • António Nobre, Só os melhores poemas. Lisboa: Dom Quixote, 1997. – Sel. e org..
  • Vitorino Nemésio, Se bem me lembro…, Lisboa: Contexto, 2001. – Sel. e org..
  • Cristovam Pavia [Francisco Bugalho], Poesia, pref. Fernando J. B. Martinho, rev. Luís Manuel Gaspar. Lisboa: Dom Quixote, 2010. – Edição e notas.
  • Henrique Segurado, Almocreve de Palavras: poesia 1969-1989, des. Rui Sanches. Lisboa: s.n., 2011. – Sel. e org..

Alguns estudos, prefácios, resenhas, nótulas críticas…

  • Fernanda Botelho, A Gata e a Fábula: romance, Introd. Joana Morais Varela, Lisboa: Círculo de Leitores, 1987. – Introd.
  • «“Canção à maneira e à memória de António Boto” por Vitorino Nemésio», Luís Amaro & Joana Morais Varela, Colóquio/Letras, n.º 113/114, jan. 1990, pp. 5-12.
  • «Uma “árvore” de quarenta anos», Colóquio/Letras, Lisboa, n.º 121/122, jul. 1991, pp. 284-285.
  • «Confissões de tradutor. O arquipoeta de Colónia e Walther von der Vogelweide em versões portuguesas de David Mourão-Ferreira», Colóquio/Letras, n.º 142, out. 1996, pp. 165-183.
  • Francisco Bugalho, Poesia. 2.ª ed., Lisboa: LG, 1998. [1.ª ed., Poesia: margens: canções de entre Céu e Terra: paisagem: dispersos e inéditos, pref. José Régio. Lisboa: Portugália, 1960].
  • Raul Lourenço, A caminho do paraíso, Apresent. Joana Morais Varela, Alpiarça: Garrido Editores, 2001.
  • «David: à guitarra e à viola», in Primavera / David Mourão-Ferreira, Lisboa: Museu do Fado, 2007.
  • Ver: VARELA, Joana - Recensões críticas [898 resultados, em pesquisa], em “Rol de Livros” da in Fundação Calouste Gulbenkian.

Poesia

  • Os amores perfeitos, il. Artur Cruzeiro Seixas [gravura – “Histórias de bichos”], Lisboa: Contexto, 1983 [1.ª Ed. – tiragem única de 700 exemplares; 22,5 x 32,5 cm].

Tradução

  • Gilles Deleuze e Félix Guatarri, O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Lisboa: Assírio & Alvim, 1977. – co-trad. com Manuel Maria Carrilho.
  • James Joyce, O Gato e o Diabo. Lisboa: Contexto, 1983.
  • Michel Tournier, Que a alegria em mim permaneça: conto de Natal, il. Jean Claverie. Lisboa: Contexto, 1985.
  • Milan Kundera, A insustentável leveza do ser. Lisboa: Dom Quixote, 1985 / 30.ª ed., 2013. – trad. e posfácio.
  • Albert Cohen, O livro de minha mãe. Lisboa: Contexto, 1986.
  • Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho. Lisboa: Caravela, 1986 / 18.ª ed., 1995. / 32.ª ed., Barcarena: Presença, 2009.
  • Michel Tournier, O Rei dos Álamos. Lisboa: Círculo de Leitores, 1986.
  • Leopoldo Alas, A Corregedora. Lisboa: Contexto, 1988.
  • Sigmund Freud, Delírio e sonhos na Gradiva de Jensen. Lisboa: Gradiva, 1995.
  • Gilles Deleuze e Félix Guatarri, Mil planaltos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.
  • Gabriele Giuga, Barco negro: a emoção e a palavra. Lisboa: Museu do fado, 2007.

PARA SABER MAIS

  • «Joana Varela», in “Colóquio/Letras: História” na página da Fundação Calouste Gulbenkian (consultado a 13.11.2013).
  • «Joana Morais Varela», in Wikipédia.
  • Blogue sobre “Joana Morais Varela” [2008].
  • Redação da CARAS (2012), «Joana Morais Varela festeja 60.º aniversário», in Caras [online: http://caras.sapo.pt], 29.01.2012. – Com 15 fotografias do evento por Paulo Jorge Figueiredo.
  • GUEDES, Maria Estela (1986), Recensão crítica de Os Amores Perfeitos, de Joana Morais Varela, Colóquio/Letras, Lisboa, n.º 89, jan. 1986, p. 90.
  • SILVA, Manuela Parreira da (2010), Recensão crítica de Poesia, de Cristovam Pavia; ed. Joana Morais Varela […], 2010, Colóquio/Letras, n.º 177, maio 2011, pp. 211-213.

José Carlos Canoa
16.11.2013

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